Toda leitura é pessoal. Alguém disse que, quando o autor disponibiliza seu livro, este deixa de ser seu para ser cada um que o lê. Tendo isto em mente, aproprio-me de minha última leitura, um livro que foi sugerido por mim no clube de leitura do qual participo. Fiz a indicação de O Gigante Enterrado de Kazuo Ishiguro sem nenhuma expectativa especial, após uma breve pesquisa na internet sobre literatura fantástica. No entanto, o livro se mostrou uma feliz surpresa. Foi um grande portal, uma abertura inesperada para visitar perguntas que vivem dentro de mim e, talvez por autopreservação, são evitadas. Questões sobre a humanidade, sua evolução (ou não), minha própria evolução pessoal e o período que vivemos. Perguntas sobre o quão salvaguardados estamos ao evitar pensar sobre a realidade, ao não utilizar o pensamento crítico, e como me sinto a respeito desta percepção.

A história se passa por volta do século VI e o tema central é uma névoa que provoca o esquecimento. As pessoas vivem apenas o momento presente com algumas vagas reminiscências de um passado. É neste cenário que encontramos Axel e Beatrice, um casal idoso que decide viajar para rever seu filho, do qual mal se recordam, mas cuja tênue lembrança causa em Beatrice um sentimento de necessidade e urgência, de algo a ser feito, como um espinho encravado em seu coração. Eles não se lembram onde exatamente o filho vive e são guiados meio que por uma intuição em sua busca. Em seu caminho encontram vários personagens num livro repleto de simbologias que nos forçam a pensar como lidamos com as mágoas, com nossos preconceitos e com o que há de melhor e pior em nossa humanidade. Quase no final de sua busca, eles se aproximam da origem da névoa e do gigante enterrado.

É neste momento que a leitura vai ficando mais lenta porque é cada vez mais difícil não trazer a experiência da leitura para o mundo atual. É um momento de incômodo e que mexeu bastante comigo. As vantagens e desvantagens da dissipação da névoa do esquecimento e a descoberta do gigante enterrado provocam muitas reflexões, nem sempre agradáveis. O que escolhemos saber ou não saber, como reagimos a isso, qual o nosso papel nas mudanças e quanta coragem e tristeza são necessárias para enveredar por um caminho que implique em cobrar mudança e fazer parte desta mudança em um mundo mundo, por vezes, perverso e injusto. 

A questão da guerra entre bretões e saxões presente no livro me fez pensar na atual carnificina em Gaza.  Nos ódios, nas vinganças, no desejo de poder e na ganância insana que faz com que homens poderosos joguem xadrez com vidas humanas sem o menor sinal de remorso. Apesar de minha opinião pessoal de que a verdade exposta é sempre melhor que a ilusão, é impossível não fantasiar como seria bom, neste momento, uma névoa do esquecimento. Em que corações fossem apaziguados e as pequenezes e mesquinharias oriundas do preconceito, desejo de vingança e desejo de posse dos homens fossem substituídas pela predisposição em ajudar. Um momento de paz...

Mas, feliz ou infelizmente, são chegados os tempos de dissipação das névoas, das cortinas de fumaça, de descobertas de mentiras e de máscaras caídas. Que sejamos fortes para lidar com as decepções e crueldades e que sejamos bondosos para entendermos as nossas próprias limitações e as alheias. Abaixo transcrevo um trecho do livro:

“ O forte pode aguentar alguns dias, talvez até uma semana ou duas. Mas elas sabem que o que as espera no fim é o seu próprio massacre. Sabem que os bebês que agora carregam em seus braços em breve serão brinquedos ensanguentados lançados com pontapés de um lado para o outro por essas pedras. E sabem porque já viram isso acontecer, nos lugares de onde fugiram. Viram o inimigo queimar, cortar e revezar para estuprar jovens meninas mesmo quando elas jaziam feridas e à beira da morte. ”

Página 177, O Gigante Enterrado de Kazuo Ishiguro

Companhia das Letras, 2015.

* Quem me disse que quando o autor publica seu livro ele passa a ser de quem o lê, foi meu precioso amigo, Mauro Dellal. Obrigada, Mauro, por sempre alimentar e provocar reflexões.

 

Para assistir a discussão sobre o livro no Clube de leitura Eneida de Moraes:

Parte I: https://www.youtube.com/watch?v=FBPUsxTWRGs&t=2811s

Parte II: https://www.youtube.com/watch?v=_NvCBSyei5k&t=2822s

 

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